Por que estão exigindo parto natural?

Nos meus estudos sempre procuro bases históricas e científicas, nada de achismos e opiniões que propagam a ignorância e falta de conhecimento que se espalham na sociedade como um vírus; e as pessoas reproduzem cegamente erros como se fossem naturais, tornam-se hábitos, não refletem, não questionam, não pesquisam e agem sem consciência.

Analisando a fisiologia do parto, o ato de parir é um fenômeno natural como qualquer necessidade fisiológica, é algo que está na nossa essência de seres mamíferos.

A civilização e a sociedade nos tornou tão humanos, e tão racionais, que esquecemos que somos seres mamíferos, temos uma predominância e raízes animais, primitivas sim; a única coisa que nos difere dos outros animais é que somos racionais e nos tornamos humanos com a evolução das espécies e da civilização. Porém, as necessidades e instintos se assemelham e temos muitas coisas iguais aos dos animais; parir é uma delas.

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Quando se tem parto natural sem intervenções, como eu tive, você se depara com essa verdade, nua e crua, você vivência as teorias científicas na realidade, pele a pele….você se depara com o óbvio, com o lógico….e fala pra si mesmo….caramba é tão simples, porque complicamos tanto?!

Se parir é natural, pra que você precisa de alguém pra fazer seu parto, se seu organismo foi programado pra isso e você tem capacidade?

Nossa mente, interagindo com a sociedade e a cultura, com toda construção histórica que transformou propositalmente por diversos motivos políticos e financeiros, o parto natural (normal) em anormalidade, em doença…esse discurso de “tocar terror” e perigo na mente das pessoas que não possuem conhecimento, aprisiona, limita o indivíduo, nos torna escravos do consumo, das intervenções desnecessárias, da dependência de alguém que “fará seu parto ?!”.

Tem gente ainda com aquela visão primitiva televisiva de que alguém irá arrancar o bebê de dentro de você a força, dar pancada em você e no bebê porque ele tem que chorar?!

Quem disse que tem que ser assim, se nunca foi ?

Essa prática maluca surgiu em um período da história, iniciado pelo Rei Luiz XIV na França no séc.XVII quando ele decretou que sua mulher e amantes tivessem que se deitar para parir porque ele queria ficar sentado vendo o nascimento de seus filhos. Foi assim, que no mundo ocidental onde sempre as mulheres pariam de cócoras, passaram a obriga-las a parir deitada (na época da submissão e opressão feminina e geralmente continua até hoje em pessoas menos esclarecidas).

A pior posição para trabalho de parto é deitada, fisiologicamente incorreto. Essa mudança fez com que na maioria dos partos naturais as mulheres e os bebês entrassem em sofrimento; por causa da posição deitada quando o bebê levanta o cóccix com sua cabecinha no expulsivo do trabalho de parto (por isso a moleira em sua cabeça, essas plaquinhas do crânio do bebê são afastadas e tem função importante para passar no canal vaginal no trabalho de parto).

Deita comprime a coluna e dificulta a famosa passagem, comprimindo o cóccix na cama e exigindo que a mulher se projete pra frente fazendo força; sofrendo ainda mais e atrapalhando a movimentação que o próprio bebê instintivamente está programado pra fazer no expulsivo.

À história é bem mais longa e complexa, mas foi assim, que surgiram no período da Revolução Francesa, emendando em seguida com a Revolução Industrial, Capitalismo e afins…no trajeto de todo esse percurso histórico….surgiu desde a época desse Rei, o início dos instrumentos obstétricos para “arrancar os bebês a força” (lógico que em casos de emergência foram importantes para salvar vidas, mas acabou tornando-se uma prática rotineira mesmo pra quem não necessita).

No início da obstetrícia com seus inúmeros instrumentos obstétricos, as parteiras perderem espaço mesmo sendo muito experientes, porque o poder era do médico, mulher nessa época não fazia medicina, no máximo eram enfermeiras (mesmo assim com poucos poderes); algumas revolucionárias com o tempo lutaram e conseguiram, aos poucos elas abriram espaço, mas o número de obstetras homens ainda é muito grande.
Essas práticas de parir deitada, serem obrigadas a mil intervenções muitas vezes desnecessárias da gestação ao parto se a gravidez não é de risco; afastar as mulheres experientes (as parteiras e doulas) do momento do parto…aquelas mulheres que na intimidade com as gestantes, ajudavam também no apoio emocional que é fundamental para o bem estar psíquico e orgânico desencadeando um bom trabalho de parto.

Isso tudo tornou-se erroneamente normal, mas não é. Surgiram sim, técnicas e praticas que salvaram vidas de gestações e partos com complicações; mas até que ponto essas práticas sendo utilizadas de forma desnecessária induziram os sofrimentos em trabalhos de parto e muitas vezes a morte de gestantes e bebês?

Se parir é natural, pra que você precisa de alguém pra fazer seu parto, se seu organismo foi programado pra isso e você tem capacidade?

A prática da obstetrícia deveria andar de mãos dadas com a experiência das parteiras, com a sensibilidade e experiência feminina, a final de contas, somos nós que gestamos, parimos e vivemos as turbulências até o Pós-parto; acontecimentos tão complexos e diversos pra cada mulher que nenhum livro acadêmico, nenhum curso e nenhum homem por mais educado e sensível que seja consegue compreender, mensurar o que nós mulheres sentimos e vivenciamos.

Seria perfeito que obstetras homens permitissem que mulheres doulas e parteiras pudessem auxiliar em seus trabalhos no sentido de dividir as tarefas, incentivar, encorajar e auxiliar no parto natural, quando a gestante possui mil dúvidas e questões mesmo nas madrugadas poder com elas diminuir medo, ansiedade e estressores que são uma das principais causas de ocorrência de problemas na gestação e nos partos; o emocional inibe o organismo de realizar suas funções fisiológicas, naturais, básicas como parir.

Conheço alguns maravilhosos obstetras que permitem e trabalham em conjunto com Doulas até na hora do parto, que escutam e aprendem muito com parteiras e enfermeiras obstetras que assistem centenas de partos naturais domiciliares; já que nosso país desaprendeu a parir.

Atualmente estamos sendo forçados pela Organização Mundial de Saúde a diminuir o alto índice de cesarianas, com isso mudar a prática obstétrica, introduzindo a humanização para diminuir a violência obstétrica (como: os puxos, toques pra medir dilatação todo tempo que é desnecessário, doloroso e inibe o trabalho de parto; subir encima da gestante com perna ou braço pra fazer força na parte de cima da barriga e empurrar o bebê pra baixo; deitar a mulher em trabalho de parto, usar instrumentos para puxar o bebê e não esperar o processo do trabalho de parto…).

 Campanha que obstetras estudiosos fazem para que seus colegas diminuam as intervenções desnecessárias que são dolorosas e inibem trabalho de parto muitas vezes provocando sofrimento fetal e mortes.
Campanha que obstetras estudiosos fazem para que seus colegas diminuam as intervenções desnecessárias que são dolorosas e inibem trabalho de parto muitas vezes provocando sofrimento fetal e mortes.

O problema é conscientizar a população que não compreende essas mudanças, não possui conhecimento. O Ministério da Saúde exige que todos mudem e realizem mais partos naturais; essa mudança é importantíssima, como sempre chegando atrasada em nosso país, na Europa a maioria dos partos são naturais, geralmente 10% de cesariana.

Porque a Organização Mundial de Saúde está exigindo reduzir partos cesariana e incentivam o natural?
Porque científicamente cesariana não é um tipo de parto, e sim uma cirurgia de alto risco para casos de emergência obstétrica.

Neste vídeo podemos compreender o porque a cesariana não é um tipo de parto, e sim, uma cirurgia de alto risco; ao menos que alguém queira que seus filhos ao nascer tenham um bisturi passado rente no crânio de seu bebê sem necessidade. Cesariana é cirurgia de emergência para salvar vidas em risco.

A Organização Mundial de Saúde reconhece que o índice de mortes são maiores em países que possuem índice alto de cesarianas, aumenta o risco de comprometimento cirúrgico e Pós-Cirúrgico, a recuperação é complexa, os bebês nascem prematuros porque são retirados antes do seu tempo (o tempo do bebê só ele sabe, só sabemos quando inicia trabalho de parto ativo) por isso são levados para incubadora e berçário (bebês saudáveis de parto natural não precisam de berçários o contato deve ser direto com a mãe; agora estão aos poucos mudando isso no Brasil no SUS); prejudicando a saúde dos bebês a curto, médio e longo prazo, dependendo das questões genéticas e interação com o meio….são vários os motivos.

Na Inglaterra o Ministério da Saúde do país incentiva o parto domiciliar para gestantes sem riscos…obstetras intervêm quando a gestação é de risco, a cesariana é como deve ser, cirurgia de emergência; e o índice de morte deles é mínimo por volta de 1%.

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Cartaz do Ministério da Saúde na Inglaterra orientando e incentivando as gestantes sem riscos a realizar partos domiciliares com assistência.

As pessoas no Brasil questionam, e dizem:  Mas na Europa existem países de primeiro mundo, tem tecnologia, recursos?!
Mas porque eles com tudo isso preferem parir ao natural?

Porque preferem parir em casa e médicos recomendam essa prática para gestantes sem complicações?

Porque as Européias conseguem e nós não? As brasileiras são inferiores ou possuem alguma anomalia?

A bacia delas é maior que a nossa?! Não!!!!

A diferença é que eles possuem conhecimento, o saber é tudo para eliminar a ignorância; e deixarmos de ser escravos, burros ou bois que seguem a boiada de um sistema que lucra com a ignorância que alimentam em países chamados de subdesenvolvidos como o nosso.
Vamos quebrar essa corrente da falta de conhecimento; somos capazes sim de parir, não somos inferiores.

O que precisa ser mudado é nossa mentalidade e consecutivamente nossos hábitos errôneos naturalizados e tão enraizados; no qual consideramos saudáveis, mas não são.

Mudar a ideia dos mitos que foram criados e propagam a faltam de conhecimento, que dizem que parto natural é a dor da morte (algumas mulheres sentem dor, outras não, depende de fatores emocionais).

A dor é inerente ao ser humano iremos sentir em todos processos, cada um de forma diferente, não dá para fugir, quanto mais foge ela te persegue; a dor não está só no parto natural, ela está na cesariana também: quando forem aplicar inúmeras anestesias, quando tentam achar o local da aplicação, quando você não sentir seu corpo da cintura para baixo de tanta anestesia, algumas sentem toda sensação da cirurgia, quando retirar os pontos, a cicateização demorada, as cólicas durante amamentação quando o útero por vários meses tenta retornar ao seu lugar com cada sugada do bebê, as dores do peito rachado, a dor muitas vezes prolongada da amamentação até você se acostumar….são muitas dores, elas sempre existirão. O importante é que a dor te faz gerar a vida, não é a dor da morte, é a dor da vida!

Esses filmes são os melhores para compreender todo processo e sair das trevas da ignorância: 

5 comentários sobre “Por que estão exigindo parto natural?

    1. Oi, querida. Complicado indicar, mas posso dizer q dos muito conhecidos na esfera humanista em SP existe Dro.Jorge Kuhn, Dra.Melania Amorim…não tenho contato telefônico deles, mas vc os encontra no Facebook. Tento te enviar a lista dos médicos de SP e suas taxas de cesariana; através da lista vc pode avaliar os médicos q possuem maior índice de partos naturais sejam um pouco mais confiáveis; mesmo assim, existem partos vaginais q não são nada “humanizados” e cheios de violência obstétrica.
      Em SP posso indicar o grupo da Obstetriz Ana Cristina Duarte (ela tamb.assiste muitos partos domiciliares e ministra cursos para capacitar parteiras, enfermeiras, obstetras ao parto natural – super experiente) vc pode conseguir mais informações e contatos diretos, existe grupo de gestante tamb. Segue site: http://www.maternidadeativa.com.br

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  1. Olá Quitéria, como vai?
    Amei seu site e para mim que estou preparando meu corpo e minha mente para ano que vem passar pela maternidade, se Deus permitir, está sendo uma benção, uma grande aprendizagem.
    Tentei postar no post sobre o parto cesáreo, mas não consegui, então vou postar nesse post mesmo.
    Meu sonho é ter um parto mais natural possível, mas tenho encontrado resistência da minha gineco por ter feito a alguns anos cirurgia na coluna lombar mais conhecida como artrodese lombar, por causa de três hérnias de disco. Hoje tenho duas placas e oito parafusos de titânio na coluna lombar, e o que ela me diz é que o recomendado é não ter normal, mas já percebi que ela é cesarista até a alma. Você conhece alguém ou ja ouviu falar se a restrição a ter parto normal quem já fez esse tipo de cirurgia como eu? Obrigada pelo espaço de interação. Bjs!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi, Camila. Tudo ótimo!
      Feliz por ter gostado do site.
      Também estive nessa fase “tentante” preparando para ser mãe; segui conselhos da minha médica e da neurociência: pra parar de pensar em gestação porq pode inibir os hormônios da fecundação. Foi certeiro, parei de pensar, me ocupei com outras coisas e engravidei.
      Sobre seu caso específico não conheço, mas posso dizer q tenho vários problemas de coluna, não tão graves quanto os seus, nunca fiz cirurgia e nem coloquei pinos; mas tenho protusão discal (quase hérnia de disco), desvio nas L4 e L5…e algumas outras coisas de tanta dança e exercício de impacto. Acredito q por isso senti bastante dores na lombar no meu trabalho de parto, não senti dor nenhuma na coluna durante a gestação q é bastante raro, tinha certeza q sentiria com meus problemas.
      A dor da coluna veio atacar no dia do meu parto, também foi única e somente na lombar, porq o bebê levanta o cóccix c/a cabecinha apertando sua moleira pra passar…o bebê q faz a tal passagem e todo trabalho; na região da vagina onde todo mundo pensa em sentir dor não senti nenhuma na hora o próprio organismo anestesia tudo, tive sensação de alívio e prazer; mas na coluna doeu. Porém a recuperação é muito rápida c/15 dias já estava caminhando lentamente na esteira da academia. Te aconselho a procurar as profissionais do http://www.coletivodeparteiras.com elas são muito experientes e possuem atualização das evidências científicas sobre seu tipo de caso, se é possível ou não. Uma delas foi quem deu assistência ao meu parto a Enfermeira obstetra Marcella Pereira, elas atendem e fazem analisa de gestantes q querem parto domiciliar pra avaliar se é possível, depende das condições físicas e psicológicas, parto domiciliar não é pra toda gestante existem restrições. Independente de vc querer domiciliar ou hospitalar elas são as mais experientes q conheço q podem dizer se no seu caso é possível ou não. Boa sorte! Bjs!

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      1. Obrigada Quitéria pela atenção em responder de forma tão completa a minha indagação. Um maravilhoso Natal para você e toda a sua família e uma passagem de ano cheia de luz e boa energias! Beijos!

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